Edição Nº 797
Brasil, 3 de Setembro de 2010
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Deu no Wall Street Journal’



O jornal econômico mais prestigiado do mundo, o norte-americano ‘The Wall Street Journal’, rendeu-se ao avanço da TV Record sobre a Globo no Brasil. Na edição do dia 5 de julho, a respeitada publicação estampou uma reportagem de página inteira, com uma chamada de destaque na capa, relatando os investimentos da emissora, a contratação de profissionais nos últimos anos e, com isso, o impulso obtido na luta pela liderança da audiência no País.

Para o jornal, a “Record desafia a hegemonia da Globo”. O repórter Matt Moffett inicia o texto mostrando a ironia da história que se esconde por trás da arrancada da Record.

– Edir Macedo, o líder da Igreja Universal do Reino de Deus, sabe, em primeira mão, o impacto dos melodramas produzidos pela TV Globo, a maior rede de televisão da América do Sul. Afinal, a Globo chegou a exibir uma minissérie nada lisonjeira, chamada ‘Decadência’, sobre um pastor inescrupuloso claramente inspirado no próprio Macedo – afirma, no primeiro parágrafo da matéria, enfocando os agressivos ataques da Globo, nos anos 90, contra o dirigente espiritual da Igreja Universal.

“Terremoto” na televisão
O bispo Edir Macedo, personagem principal da matéria, aparece na primeira página, em um dos tradicionais retratos desenhados a bico-de-pena, marca registrada do ‘The Wall Street Journal’. Segundo o jornalista norte-americano, “ao encarar a Globo, o bispo está se vingando dela e, com isso, sacudindo um dos mercados de TV menos competitivos do mundo”.

A reportagem ainda cita exemplos de investimento, como a construção do RecNov, no Rio de Janeiro, e a contratação de centenas de atores e jornalistas, vários deles vindos da principal concorrente.

“O confronto entre as duas redes representa um terremoto no mundo do entretenimento brasileiro, onde a Globo, normalmente, atrai mais de metade da audiência no horário nobre e em torno de 75% da receita publicitária. Agora, o crescimento da Record está desvelando uma versão tropical do velho sistema de estúdios de Hollywood, no qual a Globo dominava todos os aspectos do mundo do entretenimento e ditava o que queria aos artistas”, segue o texto.

Pressão da concorrência
Uma das entrevistadas para a matéria foi a atriz Lavínia Vlasak (foto), a Erínia de ‘Vidas opostas’, que deixou a Globo depois de fazer diversas novelas, para protagonizar seu primeiro folhetim, ‘Prova de amor’, na Record.

— Pela primeira vez, os atores têm um poder de negociação e verdadeiras opções – analisa a atriz, para quem o acirramento da concorrência entre as emissoras amplia o mercado para seus colegas.

Essa tendência é demonstrada pelo repórter nos parágrafos seguintes do texto.
– Graças à pressão da Record, a Globo teve de oferecer contratos de longo prazo lucrativos a vários artistas, para impedir que debandassem. Os salários dos atores principais aumentaram cerca de 80% nos últimos anos, de acordo com o Sindicato de Atores de São Paulo. Alguns cameramen dobraram seus ordenados ao se mudarem para a Record, de acordo com o sindicato deles – prossegue.Outro ponto importante é que a Rede Record começou a garimpar novos talentos entre profissionais que não tinham o devido reconhecimento na concorrente.
— A Record ofereceu um recomeço a artistas subaproveitados da Globo, como Tiago Santiago. Durante mais de 20 anos, Santiago, 44, trabalhou na Globo como um ator, sempre em papéis secundários, e, depois, como roteirista de novelas. Tinha de engolir seu orgulho enquanto autores mais prestigiados, muitas vezes, recebiam o crédito pelo trabalho dele.

– Na TV brasileira, você aceitava o que a Globo lhe oferecia e ficava quieto – disse Tiago Santiago, segundo o artigo.

Família Marinho e Clero Romano
Em outro trecho da reportagem, Matt Moffett relembra a ligação história da Globo e de seus fundadores com o catolicismo brasileiro, principal motivo para as seguidas perseguições à Record, à Igreja Universal do Reino de Deus e ao bispo Edir Macedo.

— A Globo, cuja família controladora, os Marinho, é historicamente próxima do establishment católico do Brasil, tem, com freqüência, apresentado reportagens críticas à coleta de dinheiro da Igreja Universal — lembra o jornalista.
O texto de ‘The Wall Street Journal’ destaca que a disputa entre Record e Globo gira em torno do mercado publicitário e da audiência.

— A Record diz que investiu US$ 150 milhões em pessoal e infra-estrutura nos últimos três anos, embora alguns analistas digam que o valor é muito maior. A Record está fazendo grandes ofertas por eventos especiais, pagando um recorde de US$ 60 milhões pelos direitos de transmitir as Olimpíadas de Inverno de 2010 e os Jogos Olímpicos de Londres em 2012.

A reportagem analisa também a disparada da Record na audiência, já consolidada como a segunda maior no ranking das emissoras.

— Em São Paulo, o maior mercado do Brasil, a Record dobrou sua fatia dos espectadores em horário nobre para 16%, nos últimos três anos, e pulou para o segundo lugar, depois de ficar anos em terceiro. No geral, a Record ainda está bem atrás da Globo. Contudo, alguns de seus programas, como a revista matinal ‘Hoje em dia’, oferecem séria concorrência à Globo.

Liberdade artística
O fim do texto cita Marcílio Moraes, roteirista responsável por ‘Vidas opostas’, novela que apresenta excelentes índices de audiência e tem ganhado da Globo em diversos dias. Para ele, a principal diferença entre as duas emissoras está na liberdade criativa de que ele desfruta desde que mudou de ares.

– Marcílio Moraes, um roteirista de novelas da Record que havia passado quase duas décadas na Globo, diz que está contente de trabalhar para a rede de Macedo. Moraes afirma que, em seu atual sucesso na Record, ‘Vidas opostas’, desfrutou de mais liberdade criativa para lidar com temas como crime e pobreza do que jamais teve na Globo. Ele salienta que, de maneira alguma, os anunciantes da concorrente iriam querer sua marca associada com a realidade crua de sua novela, uma espécie de Romeu e Julieta em meio às brigas de quadrilhas no Rio — finaliza.
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