Por Celso Fonseca
celso.fonseca@folhauniversal.com.br
O doutor Brandão é um médico respeitado, mas dado a posições retrógradas. Num momento em que o País debate questões importantes, que certamente vão torná-lo mais civilizado, como a interrupção da gravidez de fetos anencéfalos e o uso de células- tronco embrionárias, lá vem o doutor Brandão, de jaleco branco e opiniões embebidas pelo extremismo religioso.
Com mais de 50 anos de carreira, o médico obstetra Dernival da Silva Brandão, membro da Academia Fluminense de Medicina, deixou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio de Mello de queixo caído. Durante sessão em que se debatia a interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, na qual – é fato – a mulher corre risco de morte e pode sofrer muito durante a gestação, o médico afirmou que o “sofrimento purifica”.
Por incrível que pareça, doutor Brandão faz sucesso. Com teses antiquadas, ele é sempre convocado a representar os setores mais conservadores da Igreja Católica e demais movimentos contrários ao direito da mulher sobre o próprio corpo.
Para o doutor Brandão, uma gestação de risco em que o bebê vai morrer dignifica a mulher. "Continuamos perplexos com a resposta", afirmou o ministro Mello, após a audiência.
A perplexidade já seria natural, mesmo se a frase partisse de um cidadão comum. Tratando-se de um médico, que tem por um dos ofícios combater o sofrimento humano, provoca sérias preocupações com a saúde pública.
O doutor Brandão é um dos poucos médicos contrários à interrupção da gravidez de bebês anencéfalos. Nos casos em que o desenvolvimento do cérebro é comprometido, a morte do bebê é certa. Pode também levar a mãe à morte.
Não por acaso, pesquisa recente indica que 80% dos ginecologistas membros da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) são favoráveis ao direito da mulher optar por interromper esse tipo de gravidez.
Para o médico Jorge Andalaft Neto, que representou a Febrasgo no STF, a opinião do colega não tem sentido: "Esse conceito de que ser mãe é sofrer no paraíso tem que acabar. É muito arcaico", afirmou à Folha Universal. "Não existe mais isso de falar que a dignificação vem do castigo. A ciência superou isso", completou.
No STF, o ministro da Saúde, o médico José Gomes Temporão, foi a favor da interrupção.
"A mulher vive situação brutal, cruel, sabendo que carrega no ventre uma vida que não terá continuidade", afirmou.
Na audiência, o doutor Brandão chegou a comparar o movimento para que a mulher possa exercer os direitos de interromper a gravidez com práticas nazistas.
É de deixar qualquer um perplexo.A voz do povo
A Folha Universal foi às ruas perguntar o que a população pensa da interrupção da gravidez no caso de bebês anencéfalos e saber a repercussão das declarações do médico Brandão no Supremo Tribunal Federal. Leia, ao lado, algumas das melhores respostas.
Eu sou a favor da interrupção porque já se está sabendo que a criança vai sofrer. Para que deixá-la vir ao mundo? O sofrimento não purifica.
Cristiane Raimundo, de 24 anos,
encarregada de confecção
O sofrimento não purifica ninguém. Muito menos o bebê. Por isso, sou a favor da interrupção como a maioria dos médicos.
Mário Mustaro Filho, de 45 anos, advogado
Eu não consigo ser a favor. Sou contra a interrupção. Eu acho que o sofrimento não
purifica. Isso vai de cada um.
Lucélia Galliaca, de 31 anos, professora
Sou a favor da interrupção quando isso poupa os envolvidos do sofrimento, principalmente, o bebê. Tive filhos, netos e jamais usaria o sofrimento deles para me purificar.