Por Guilherme Bryan
guilherme.bryan@folhauniversal.com.br
O economista Amyr Klink, muito mais conhecido pelas expedições náuticas, foi o primeiro navegador do mundo a atravessar o Atlântico Sul num barco a remo. O feito levou 100 dias, entre junho e setembro de 1984, e rendeu o livro “Cem Dias Entre o Céu e o Mar”. Entre outras façanhas, circunavegou a região polar Antártida, para onde embarcou pela primeira vez em dezembro de 1989, chegando até o Ártico. Dono de empresa que constrói barcos e desenvolve planos urbanísticos para cidades costeiras, Amyr Klink conversou com a Folha Universal, por telefone, momentos antes de voltar para o mar, numa península próxima a Paraty, no Rio de Janeiro, onde mora. Pai de Tamara, Laura e Marininha, ele contou que até o final do ano voltará para a Antártida.
1 – Como você deseja comemorar os 25 anos da travessia do Atlântico Sul e os 20 anos da primeira viagem à Antártida?
Estamos nos preparando para voltar à Antártida no final do ano, onde deixaremos o barco Paratii 2, até 2011, como plataforma móvel de experimentos, pois há uma vantagem muito grande de custo dele com relação à base fixa. Agora, só falta embarcar suprimentos e combustível.
2 – Há erros da viagem de 1989 que você pretende não repetir?
Detesto falar da importância do sucesso, pois o mais fascinante das experiências para o aprendizado são os erros. Hoje, fazemos barcos que estão entre os mais modernos do mundo. Porém, só conseguimos isso, porque cultivamos a sensibilidade de perceber a importância das coisas simples.
3 – Quando começou a paixão pelas expedições marítimas?
Sempre gostei de história e ficava fascinado com a ousadia dos navegadores
vikings, chineses e, principalmente, portugueses, que, a partir de 1490, empreenderam uma mudança na história econômica do mundo, o que os livros não contam. Foi uma empreitada maravilhosa, na qual eles desenvolveram uma embarcação menor e mais versátil, a caravela, e uma tecnologia para passar meses e meses em alto-mar.
4 – O que o mar representa na sua vida?
Na infância, eu tinha muito medo do mar, pois, uma vez, no Guarujá (SP), tomei um tombo e engoli muita água. Até que, na adolescência, comecei a me interessar pelas histórias dos velhos canoeiros. Foi o que me fascinou na navegação e me fez construir um museu, em São Francisco do Sul (SC), que é um dos três mais importantes do mundo na área e que forma crianças da periferia na construção de canoas.
5 – Que ensinamentos a navegação pode levar a uma criança carente?
Ela forma o caráter do jovem, que passa a compreender ser possível avançar contra o vento, mas com paciência, humildade, respeito, dedicação e foco. No mar, prevalece a solidariedade acima do primeiro lugar, do prêmio e das bandeiras. Por mais milionárias ou simples que sejam as velas, quando alguém tem um problema nas competições, o outro sempre ajuda.
6 – Sempre foi seu propósito transformar as viagens em livros?
Nunca viajei para escrever, mas sempre fui um colecionador de livros de viagens. Assim, era natural que, quando terminei a primeira experiência bem-sucedida, viesse a vontade de escrever. E, sem ser muito modesto, o livro vendeu mais de um milhão de exemplares e influenciou quem não conhecia esse universo. No livro, eu narro uma espécie de história de amor com Rosa, uma canoa de 141 anos, a mais bonita de Paraty e na qual vou navegar daqui a pouco.
7 – Quais foram as maiores dificuldades da travessia do Atlântico Sul?
Foi uma viagem impressionante pela distância e pelos recursos relativamente limitados. A preparação foi muito mais complicada do que a própria viagem. Então, compreendi a importância de se preparar bem um barco. Mais do que uma façanha de remar por 100 dias, foi uma experiência de convivência com o mar.
8 – No que o curso de economia ajudou nessas expedições?
Eu detestei o curso de Economia (da Universidade de São Paulo), mas tinha consciência do privilégio de estudar numa escola pública. Hoje, sei que, se não tivesse estudado economia, não saberia como montar um estaleiro, nem como administrar 200 pessoas. Tenho muito orgulho, não dos recordes, mas de ter juntado pessoas que não tinham ideia do que era um barco e hoje são grandes especialistas.
9 – Como você administra a permanência solitária longe da família?
A família tem que estar no coração e não, necessariamente, na mesma sala. Quando estou viajando, minha mulher (Marina) me ajuda com os problemas que ficaram para trás. Só saber que tem alguém preocupado comigo não me deixa sentir isolado. Quando meu barco ficou preso na Antártida, em 1990, eu era o homem mais feliz da Terra, pois passaria 1 ano sem oficial de Justiça, despachante, advogado e vizinho reclamando.
10 – Quais foram suas maiores aventuras no mar?
Foi a primeira vez que levei as meninas para a Antártida. Descobri que, quando você ensina, é que começa a aprender. Foi uma viagem prosaica, sem aventura, no sentido esportivo, mas, para nós, foi uma aventura do conhecimento. Aliás, não gosto do termo aventura, pois o que um navegador não quer no mar é aventura. Eu quero ter certeza que, em dezembro, estarei sentado admirando a paisagem na Antártida.